Rui Moreira de Sá

Director Editorial

direccao@jornaldasaude.org

Depressão e suicídio de mãos dadas

 

De acordo com uma recente mensagem da directora regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para África, Matshidiso Moeti, por ocasião do Dia Mundial da Saúde (7 de Abril), cerca de 322 milhões de pessoas no mundo são afectadas pela depressão, considerada umas das principais causas de incapacidade a nível mundial, e um dos factores que contribuem para o fardo mundial de doenças. Na região africana, são perto de 30 milhões de pessoas.

A depressão é uma das principais causas das mortes por suicídio, aproximadamente 800 mil por ano. É, aliás, a segunda principal causa mundial de morte em jovens dos 15 aos 29 anos. Em Angola, em 2014 e no primeiro semestre de 2015, registou-se um total de 783 casos, dos quais 85% são homens, com Luanda à cabeça, seguida de perto pela Huíla.

A depressão afecta pessoas de todas as idades, de todos os quadrantes e em todos os países. O estigma e o receio do isolamento social são obstáculos à procura de ajuda, existindo uma necessidade premente de prevenir e tratar as pessoas atingidas por este grave e complexo problema de saúde.

Sem tratamento, a depressão pode ser recorrente, duradoura, prejudica a capacidade de um indivíduo para lidar com as actividades diárias, e pode ter consequências devastadoras para o relacionamento com a família e os amigos.

Nem de propósito, os dados relativos à prática do suicídio em Angola foram agora, pela primeira vez, recolhidos a nível nacional, tratados e analisados. Este trabalho de elevado valor científico, reunido em livro lançado este mês em Luanda, da autoria de Fausta Conceição, Luísa Assis, Edite Neves e Rosária Neto, permite traçar um retrato da situação no país e combater um problema que se torna cada vez mais comum. Os transtornos psíquicos, como a depressão, a esquizofrenia, o consumo de álcool e outras drogas, ou o transtorno bipolar estão entre as principais causas de suicídio no nosso país, mas a estas juntam-se motivos como “a existência de problemas financeiros e passionais”, entre outros.

A ler nesta edição.

 

 

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Bastonário Carlos Alberto Pinto de Sousa. “Homenageamos os médicos que actuaram com profissionalismo e humildade, cumpriram os deveres e tiveram um desempenho exemplar”

 

Francisco Cosme dos Santos com RUI MOREIRA DE SÁ

 

Na cerimónia de homenagem aos médicos que completaram 25 anos de carreira - que teve lugar no dia do médico, a 26 de Janeiro, em Luanda – o bastonário da da Ordem dos Médicos de Angola (ORMED), Carlos Alberto Pinto de Sousa, disse ao Jornal da Saúde que o acto teve “um significado muito importante porque distingue, ao mais alto nível, todos aqueles que tiveram um desempenho exemplar, que actuaram com profissionalismo e humildade, cumpriram os deveres e souberam transmitir às novas gerações um legado salutar”.

No quadro do lema adoptado este ano “Trabalhar para humanizar o atendimento”, Carlos Pinto de Sousa lembrou aos médicos o seu papel fundamental na humanização, que passa também pelo contacto com os pacientes e suas famílias. “A classe é incentivada a nunca esquecer que, para ser médico, é preciso pensar, primeiro que tudo, nos doentes e, consequentemente, não permitir a existência de brechas no edifício moral desta profissão, construída ao longo de vários anos”.

O bastonário garantiu que a Ordem vai continuar a pugnar no sentido dos médicos, integrados em equipas de saúde, exercerem a liderança decorrente do mérito e da prova irrefutável da sua competência. “A Ordem defende, preconiza e estimula o papel primordial dos médicos junto das populações e promove constantemente uma aproximação a outras associações de profissionais”.

A instituição assume ainda o compromisso de contribuir, de forma inequívoca, para a execução das acções de saúde que as políticas públicas definam como prioritárias no âmbito da saúde no país.

O bastonário Pinto de Sousa defendeu ainda que “os médicos devem valorizar os novos conceitos que a medicina defende, ou seja, permanente e actuante profissionalismo, adaptando-se à realidade sem ferir os valores fundamentais que constam no código deontológico da profissão médica”.

Não obstante a medicina, nas últimas cinco décadas, ter sofrido transformações significativas motivadas pela evolução científica e tecnológica, e também pelos padrões nosológicos, e de se observarem novos paradigmas evolutivos marcados pela ramificação da medicina em especialidades médicas e áreas de actuação, “a profissão de médico continua baseada no juramento hipocrático dos pontos de vista formal e substancial”, lembrou.

“O que vale dizer que continua a valorizar-se a relação médico-doente, na sua dimensão holística e humanista, cujo conteúdo ultrapassa a ideia utilitarista da profissão”, sublinhou.

De acordo com Pinto de Sousa, “o compromisso dos médicos assume a responsabilidade consciencializada face aos doentes e às doenças, a liberdade de prescrição dentro dos limites impostos do código ético-deontológico, a verticalidade de procedimentos, portanto não vulneráveis a interesses mercantilistas e sem prejuízo da sua dignificação social e material, humildade intelectual que é exigida pela grandeza dos que reconhecem a necessidade de actualização científica permanente e solidariedade para com os colegas”, concluiu.

 

 

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Ministro da Saúde, Luís Gomes Sambo

 

“Os médicos

dedicam a vida ao serviço da

humanidade”

 

A Ordem dos Médicos de Angola (ORMED) homenageou 131 médicos que completaram 25 anos de carreira pela sua entrega à saúde e bem-estar das populações. Na cerimónia – que teve lugar no dia do médico, a 26 de Janeiro, em Luanda – o ministro da Saúde, Luís Gomes Sambo, sublinhou que “todos os médicos devem fidelidade à profissão e, como sempre, têm que dedicar as suas vidas ao serviço da humanidade”.

Disse ainda que têm também que exercer a profissão com consciência e dignidade, colocar a saúde do doente acima de qualquer interesse, a obrigação de preservar a vida humana, o dever de pôr os conhecimentos científicos e as tecnologias de saúde com toda a lealdade ao serviço dos doentes.

O dirigente acrescentou que os profissionais de saúde devem ter a capacidade e a honestidade para conhecerem os seus limites, e aceitar chamar outros médicos, com mais qualificação ou mais experientes, sempre que necessário.

No dia em que a Ordem dos Médicos de Angola completou o seu 27º aniversário, o ministro lembrou à classe médica que prestar assistência a um doente em estado grave nos serviços de urgências é um dever humanitário.

Gomes Sambo fez menção ao código internacional de ética médica de 1949. Este documento determina que o médico deve manter o mais alto nível de conduta profissional e não permitir que a ganância ou lucro influenciem o exercício livre da medicina, independentemente do seu juízo profissional sobre os doentes. E, ainda, que o médico deve tratar os colegas e os doentes com honestidade e denunciar os que possuem carácter inadequado e deficiente, no que diz respeito a competência, sobretudo os que ocorrem em fraudes ou engano.

 

Humanização dos serviços

O governante convidou todos os médicos para considerarem a humanização dos serviços de saúde como parte da agenda de trabalho. Com vista a melhorar o comportamento de vários médicos e as respectivas tomadas de decisões em relação à profissão, aconselhou a pautarem sempre a sua conduta pelo juramento de Hipócrates, código internacional de ética médica e outros manuais como principais guias.

No certame, o titular da pasta da saúde felicitou o bastonário da Ordem dos Médicos, e os que lhe antecederam, pelos progressos realizados em matéria de organização interna da Ordem e pelas suas contribuições decisivas para a edificação do Serviço Nacional de Saúde.

 

 

 

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Dia do Médico

 

“Somos dos primeiros médicos a exercer medicina no período pós-independência em Angola”

 

Menezes Pedro Freitas

Pediatra

Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto

Hospital Municipal do Bailundo, Huambo

 

Para mim, esta homenagem significa, em primeiro lugar, o reconhecimento do esforço empreendido nos estudos, dado que não foi fácil, no passado, fazer uma licenciatura em medicina. Em segundo lugar, um grande reconhecimento do contributo dado ao sector de saúde e o trabalho que prestei às populações que precisavam dos cuidados sanitários desde o início e durante toda a minha carreira médica no país.

Os principais desafios que enfrentei foram a adaptação repentina a que tive de me sujeitar devido aos trabalhos que desenvolvi em condições adversas. No início, durante os estudos, já havia muitas dificuldades, pois faltavam livros, computadores, energia eléctrica… Após a formação, trabalhávamos com o que era possível, porque não tínhamos outras alternativas e também éramos os primeiros médicos a exercer a medicina no período pós-independência em Angola.

 

“Integro o grupo de médicos que enfrentaram muitas dificuldades para se formarem”

 

Eunice Manico

Faculdade de Medicina, da Universidade Agostinho Neto

Chefe do departamento da promoção e gestão de dadores de sangue

Instituto Nacional de Sangue

 

 Esta homenagem tem um significado extremo que me deixa bastante orgulhosa. Na realidade, integro o grupo de médicos que enfrentaram muitas dificuldades para se formarem. Considero assim uma grande batalha chegarmos até este dia que consagra os 25 anos de carreira de vários edificadores da medicina no país.

Os principais desafios que enfrentei ao longo do exercício da medicina foram muito difíceis, desde a falta de cultura, por parte dos angolanos, quanto à necessidade e valor da doação de sangue, o que tem sido uma luta constante para salvar vidas, entre outros reptos que que o tempo apagou…

Um caso de sucesso na minha carreira consistiu na formação que fiz para me tornar especialista, após longos anos à espera desta especialidade.

 

“Pode-se melhorar a saúde se todos os profissionais primarem pela humanização e olharem os pacientes com zelo e muito amor”

 

Elisa Gaspar

Faculdade de Medicina do Instituto Superior de Ciências Médicas na ex-URSS

Pediatra-neonatologista e coordenadora do núcleo do aleitamento materno

Maternidade Lucrécia Paim

 

Esta homenagem tem um grande significado porque vem lembrar o que representaram para mim estes 25 anos de exercício de medicina. Na verdade, foram muitas as vitórias no processo de aquisição de mais conhecimentos ao longo da profissão: fiz dois mestrados em saúde materna infantil no Brasil, e de saúde pública em Espanha, e vários outros cursos, entre os quais o de formação de formadores em três etapas (Angola, Singapura e Cabo Verde) para o melhoramento dos programas a nível da África.

Os principais desafios que enfrentei foram a falta de equipamentos e de tecnologia em geral. Quando regressei ao país, não existiam os quadros que temos actualmente. Éramos três médicos que trabalhávamos no berçário da maternidade. Após o falecimento de um, tivemos de fazer incontáveis sacrifícios para garantir a assistência de muitas crianças que nasciam diariamente.

Um caso de sucesso que realço foi, por coincidência, relacionado com um familiar: a minha tia abortava frequentemente, sem querer. Foi assim hospitalizada, durante cerca de dois meses, para poder ter, finalmente, um bebé. Acompanhei-a em permanência. Como médica, após o serviço ia a casa apenas para trocar de roupa e regressava de imediato para cuidar dela. Quando deu à luz foi uma alegria e não me ausentei sem que ela recebesse o título de alta!

Pode-se melhorar a saúde se todos os profissionais primarem pela humanização dos serviços, olhando os pacientes com zelo e muito amor.

 

“Durante toda a vida, empenhei-me para que muitas mulheres conseguissem ter uma gravidez sem riscos e filhos saudáveis”

 

Augusta Leonel

Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto

Gineco-obstetra

Clínica Girassol

 

Esta homenagem tem para mim um significado de extrema importância, porque já passaram 25 anos desde que me formei e, ao longo deste período, dei o meu melhor em prol da saúde dos angolanos. Agradeço à Ordem dos Médicos de Angola por esta louvável iniciativa de reconhecimento a todos os profissionais que se dedicaram inteiramente ao exercício da medicina no país.

Os principais desafios que enfrentei na carreira foram, por um lado, aplicar na prática tudo que tinha aprendido na formação académica, e, por outro, empenhar-me cada vez mais para que muitas mulheres conseguissem ter uma gravidez sem riscos e filhos saudáveis.

Entre outros casos de sucesso, destaco os episódios de várias mulheres que não conseguiam terem filhos, com histórias de fertilidade difíceis, e ter conseguido tratá-las com êxito. Inclusive, houve muitas mães que atribuíram o meu nome aos seus filhos pelo reconhecimento do meu trabalho.

Pode-se melhorar a saúde apostando na formação de quadros e investindo neste sector, priorizando-o, de forma a desenvolvê-lo.

 

“O desafio mais gratificante foi a contribuição permanente para a melhoria da saúde da população angolana”

 

Ana Ruth Luís

Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto

Directora dos serviços de saúde da Chevron para África Austral

Chevron Angola

 

Esta homenagem tem um grande significado porque é um reconhecimento merecedor, de um trabalho longo, com grandes dificuldades enfrentadas na formação.

Entre os principais desafios encarados, sublinharia a defesa do curso em 1992, quando o país estava em conflito armado e eu tive que defender a tese numa correria total, devido à guerra que assolava a capital. Outros desafios que não foram nada fáceis consistiram na minha especialização, o mestrado, e – a mais gratificante – a responsabilidade que suportamos, até ao presente momento, de contribuirmos para a melhoria da saúde junto a toda a população angolana.

Casos de sucessos são inúmeros: as vidas que salvei, doentes que conseguiram restabelecer a sua condição de saúde e, modéstia à parte, a minha nomeação como directora dos serviços de saúde da Chevron para a África Austral, entre outros que foram ganhos no decorrer da carreira profissional e de que já não me lembro.

Pode-se melhorar a saúde revendo primeiramente a qualidade da formação dos médicos. Na realidade, a medicina é uma profissão e uma carreira que requer constantes atualizações. Destacaria ainda a educação da população, no sentido de pautarem os seus comportamentos sempre pela prevenção, dando a conhecer as doenças que existem e como podem ser prevenidas.

 

“Faço parte do leque de médicos que edificaram e primaram para o desenvolvimento da medicina em Angola”

 

Francisco Sica

Faculdade de Medicina Universidade Agostinho Neto

Oftalmologista Marinha de Guerra

 

Esta homenagem significa o grande reconhecimento de todos que acompanharam o crescimento da Ordem e contribuíram bastante para o desenvolvimento da saúde – que continua a ter progressos significativos.

Os principais desafios que enfrentei não fogem do contexto que se vivia na altura em que me formei. A fase em que comecei a desempenhar a medicina era uma época difícil, quer para a formação, quer para o exercício da profissão. Acresce que, logo após a conclusão do curso, decidi servir o exército e ingressei nas FAPLA.

O facto de ter ingressado na Faculdade com uma idade inferior a 18 anos e estar formado antes dos 25 anos de idade, sem nenhuma reprovação, constituiu, para mim, um caso de sucesso. E também ter feito parte do leque de médicos que edificaram e primaram para o desenvolvimento da medicina em Angola, para além da formação de especialização em oftalmologia no exército.

Pode-se melhorar a saúde com bastante trabalho, garantindo condições a todos os níveis, no sentido de haver mais dedicação e empenho por parte dos profissionais.

 

“Pode-se melhorar a saúde procedendo à capacitação contínua dos médicos e dos técnicos que integram as equipas”

 

Pedro Gaspar

Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto

Director da saúde da Ingombota

Repartição da Saúde da Ingombota

 

Esta homenagem tem um significado importantíssimo na minha carreira, pois trata-se de um gesto que me orgulha bastante como médico que sou.

O principal desafio que enfrentei consistiu basicamente em ter exercido a profissão em condições adversas nas unidades sanitárias, com falta medicamentos, de material gastável, de equipamentos, entre outros problemas de vária ordem – situação que, entretanto, melhorou.

Pode-se melhorar a saúde em vários aspectos. Desde o nível institucional à capacitação contínua dos médicos e de tantos outros técnicos que integram as equipas que dão um contributo significativo ao sector.

 

“Partos impossíveis por via natural, realizaram-se com sucesso por cesariana. Hoje, essas crianças são adultos saudáveis e contribuem para o desenvolvimento socioeconómico do país”

 

Kirino Tchivanja

Faculdade de Medicina da Faculdade Agostinho Neto

Ginecologista Maternidade Lucrécia Paim

 

Esta homenagem tem um significado bastante valioso, não só para mim, mas para todo grupo que se formou com tanta determinação em 1992, e que vem contribuindo significativamente para o desenvolvimento do sector da saúde no país.

Os principais desafios que enfrentei foram sempre, e continuam a ser, os cuidados que tenho dedicado às mulheres que acorrem ao hospital, com zelo e dedicação.

São inúmeros os casos de sucessos que obtive na minha carreira. Os que mais me marcaram foram os partos impossíveis de serem feitos por via natural, apenas por cesariana, e com o fruto do nosso trabalho realizaram-se com muito sucesso. Hoje, estas crianças já atingiram a idade adulta, gozam de boa saúde, e contribuem para o desenvolvimento socioeconómico do país, em diversas esferas da vida pública.

Pode-se melhorar a saúde exigindo-se um grande esforço de toda sociedade. Em primeiro lugar, o saneamento básico tem de funcionar. Em segundo lugar, deve-se garantir o fornecimento de água potável para todos, de forma a evitarem-se inúmeras doenças adquiridas por ingestão de águas não tratadas.

 

“Nas primeiras jornadas de vacinação tivemos de percorrer localidades minadas, com vias intransitáveis, mas com esforço e dedicação conseguimos atingir coberturas elevadíssimas”

 

Miguel dos Santos de Oliveira

Universidade de Sinforoso na Crimeia, República da Ucrânia, ex-URSS

Director Nacional de Saúde Pública

 

Esta homenagem constitui um marco de extremo significado que me faz reflectir imenso. Demostra o empenho que tive pelos estudos, o sacrifício empreendido ao longo destes 25 anos de carreira que contribuíram bastante para o bem-estar das populações.

O principal desafio que enfrentei consistiu na adaptação à realidade no país, após a minha formação ao longo de anos no exterior, designadamente às condições de trabalho que encontrei nas províncias durante a guerra, quando tínhamos como missão levar a saúde junto das populações. Outro repto que me lembro foi durante as primeiras jornadas de vacinação. Tivemos de percorrer localidades minadas, com vias intransitáveis. Foi grande o esforço e dedicação, mas conseguimos atingir coberturas elevadíssimas.

Casos de sucesso são vários: as nomeações como director hospitalar, direcção provincial da saúde, a abertura de várias unidades sanitárias em Luanda, a formação e recolocação dos quadros do interior.

Pode-se melhorar a saúde trabalhando cada vez mais, apostando fortemente na formação de técnicos, e não considerar que a saúde se trata apenas nos hospitais, mas sim antes, a nível da prevenção.

 

“No início da carreira deparei-me com situações muito complexas nos hospitais, as quais só foram ultrapassadas com o espírito de equipa e ajuda mútua entre os profissionais”

 

Albino Teixeira

Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto

Director da Clínica da Marinha de Guerra Angolana

Marinha de Guerra

 

Esta homenagem é o reconhecimento do trabalho árduo que fiz nestes 25 anos de carreira médica. Como militar que sou, tive de desempenhar a profissão em épocas de guerra, o que foi muito difícil, visto que estava no início de carreira e deparava-me com inúmeras situações muito complexas nos hospitais, as quais só foram ultrapassadas com o espírito de equipa e ajuda mútua entre os profissionais.

No período de guerra havia muitos feridos para serem assistidos, os recursos eram poucos, como a falta de medicamentos, matérias gastáveis…O que nos fazia resistir naquela altura, e que falava mais alto perante várias situações calamitosas, era o patriotismo.

Um dos casos de sucesso na minha carreira foi a especialização em cuidados intensivos no Brasil e administração hospitalar na Universidade Nova de Lisboa, o que me tornou num médico polivalente.

Pode-se melhorar a saúde investindo fortemente no sector, principalmente na saúde preventiva. Deve haver uma maior mobilização, porque é do conhecimento de todos a nossa população é maioritariamente analfabeta. É preciso mais educação sanitária. E, também, melhorar as condições dos hospitais, comissões técnicas e a formação contínua dos profissionais.

 

 

 

 

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Bial Angola patrocinou a gala

 

A Bial patrocinou a gala de homenagem aos médicos pelos seus 25 anos de carreira. O seu director em Angola, Nuno Cardoso, disse ao JS que foi uma honra para a farmacêutica poder associar-se ao merecido reconhecimento aos médicos pela sua entrega à saúde e bem-estar das populações.

A Bial actua em cinco áreas terapêuticas, designadamente a antibioterapia, maternidade, sistema nervoso central, laringologia e a dor. Entre os principais produtos que disponibiliza, salientam-se o Clavamox, Tricef, Uroflox, Sedoxil, Folicil, Folifer, Yodafar, Rinialer, Reumon, e o Rantudil.

Sem revelar mais detalhes, este responsável revelou que a Bial vai lançar, até Junho, um novo produto que vem satisfazer uma grande necessidade em Angola.

“O momento perturbador no fornecimento dos medicamentos já foi ultrapassado, o grupo está optimista e acredita que 2017 e 2018 serão anos de progresso, devido à regulamentação e organização da esfera farmacêutica, fruto dos esforços do executivo”, concluiu.

 

 

 

 

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Primeiro estudo a nível nacional apresentado em livro.

O suicídio em Angola

 

Os dados relativos à prática do suicídio foram, pela primeira vez, recolhidos a nível nacional, tratados e analisados, permitindo traçar um retrato da situação no país. Combater um problema que se torna cada vez mais comum é o objectivo das autoras do estudo.

 

Preocupadas com o aumento do número de casos de suicídio de que começaram a ter conhecimento, quatro especialistas angolanas em saúde mental decidiram analisar mais profundamente o fenómeno, procurando explicações para o facto de cada vez mais pessoas optarem por terminar com a própria vida e, sobretudo, para encontrarem formas para tentarem impedir novos casos. O resultado deste trabalho, da autoria de Fausta Conceição, Luisa Assis, Edite Neves e Rosária Neto, é o livro O Suicídio em Angola, recentemente lançado em Luanda.

Conscientes de que nem todos os casos de suicídio podem ser evitados, estas especialistas sabem que a habilidade em lidar com eles, assim como saber identificar sinais de alarme, pode fazer toda a diferença. Com esta obra pretendem, também, fornecer ferramentas para que, além dos profissionais de saúde, também o cidadão comum consiga identificar um potencial suicida e intervir de forma a evitar que cumpra a sua decisão.

“Não é assim tão complicado tentar prevenir o suicídio”, afirma a psiquiatra Fausta Conceição, autora e também coordenadora de Suicídio em Angola. Ao Jornal da Saúde explicou que, “em primeiro lugar, é preciso aprender a reconhecer os pedidos de ajuda que, geralmente, são desvalorizados. É a partir desses pedidos de ajuda que podemos actuar”. E exemplifica, “se alguém diz, ‘Não aguento, estou farto da vida’, só o simples facto de o dizer já deve ser uma chamada de atenção. Ninguém, no seu estado normal, está ‘farto da vida’. Todos sabemos que a vida tem altos e baixos e conseguimos geri-los sem pensar em suicídio”. Porém, não basta conseguir detectar uma situação de perigo. “É preciso saber como actuar”, sublinha a psiquiatra. E, com esse objectivo, o livro agora lançado inclui “algumas indicações de formas como podemos ajudar. É escrito de forma muito sucinta, não é cansativo. Se fosse um texto muito exaustivo, as pessoas poderiam não seguir a leitura. Penso que está interessante porque há vários tópicos e, cada tópico ensina uma coisa. Ensina os leitores a defenderem-se, a protegerem-se, a proteger os outros, a ajudarem-se a si próprios e a ajudar os outros. Torna possível intervir em situações no seio familiar, entre amigos, no meio profissional”. É um livro escrito para profissionais? “Não. É um livro instrutivo que pode ser lido por quem o desejar”, afirma a autora.

No entanto, a publicação tem ainda um outro objectivo mais específico. “Este livro foi feito para ser utilizado em futuros estudos, em Angola”, revela. “Um dos problemas que enfrentamos no país é a inexistência de bibliografia para comparação. Não podemos fazer estudos empíricos baseados em bibliografia de outros países. Os estudos têm de começar a ser feitos aqui. Nesse sentido, usámos um questionário que deverá ser utilizado em futuras recolhas, para que os dados estejam mais esquematizados. Tivemos algumas dificuldades nesse aspecto porque havia muitas omissões em relação a muitos dados que deveriam ser referidos e não foram”, lamenta, acrescentando que “todo o livro é baseado em factos reais, apurados através dos dados recolhidos com a ajuda da polícia, em todas as províncias do País.”

 

Causas, métodos e prevalência

Analisados os dados disponíveis, as autoras do livro concluem que os casos de suicídio em Angola não se distinguem muito da generalidade dos casos de outras latitudes no que diz respeito a causas e métodos utilizados ou à prevalência em relação ao sexo ou idade.

Os transtornos psíquicos, como a depressão, a esquizofrenia, o consumo de álcool e outras drogas, ou o transtorno bipolar, por exemplo, estão entre as principais causas de suicídio, mas a eles juntam-se motivos como “a existência de problemas financeiros e passionais”, por exemplo.

A época de crise económica que vivemos está directamente ligada ao aumento do número de casos de suicídio, defende Fausta Conceição. “A crise de que tanto se fala leva ao suicídio. Às vezes, as pessoas sentem-se desprezadas ou fora de um determinado circuito social porque não conseguem conquistar as vitórias que outros, à sua volta, conseguem. Essa sensação de fracasso leva-as a olhar para o futuro sem encontrarem uma saída” e, como acontece em todo o mundo, também aqui o suicídio se apresenta como uma “solução final”.

Há, no entanto, uma causa bem específica de Angola: “as acusações de feiticismo, que ainda persistem no País” e que estão na origem de muitos casos.

Os métodos utilizados também não diferem muito dos que são mais utilizados em todo o mundo. “O mais frequente, no nosso meio, é a asfixia por enforcamento - sobretudo no caso dos homens - enquanto que nos países nórdicos e europeus o método mais comum é o recurso à arma de fogo. Mas também temos casos de afogamento, de precipitação no vazio, de intoxicação por medicamentos ou venenos e atropelamentos provocados pelas próprias vítimas”, enumera a psiquiatra.

Em Angola, tal como no resto do mundo, o número de homens que se suicidam é muito superior ao das mulheres. “Os homens matam-se, as mulheres experimentam”, afirma a especialista. “Na maior parte dos casos, a mulher não tem a intenção de se matar mas, muitas vezes, tal acaba por acontecer. E, claro, também existem os casos das mulheres que estão mesmo decididas a morrer. Mas, na maior parte dos casos, a intenção não é essa.”

Já em relação às faixas etárias em que se registam mais casos, também não há diferenças substanciais em relação aos indicadores internacionais, sendo mais comum na chamada meia-idade, época em que as pessoas enfrentam problemas como a perda de emprego, por exemplo. Porém, a coordenadora de O Suicídio em Angola destaca os casos nacionais protagonizados por crianças que, e apesar da sua prática médica de muitos anos, não deixam de sensibilizá-la, como o caso de uma menina de nove anos, e que explica através das “situações de precocidade que podem levar a este desfecho. Há pais que não têm muitas condições para oferecer aos filhos que, desde pequenos têm as responsabilidades de um adulto. A mãe e o pai vão para a lavra trabalhar e aquela criança fica a tomar conta da casa e dos irmãos mais novos. Esta situação provoca um amadurecimento precoce, pois ela passa a pensar como um adulto. Não tem idade para isso. Tem idade para ficar a brincar. Ela vê os amigos a brincarem e não pode fazer o mesmo…”

A opção por colocar um fim à própria existência não afecta mais ou menos uma determinada classe social. Apesar da falta de dados relativos a este aspecto, não se pense que uma vida mais abastada pode ajudar a evitar a decisão. “Temos muitos casos que revelam que, nas classes sociais mais elevadas há tendência para recorrer ao suicídio e falamos de alguns casos no livro, nomeadamente de ex-ministros e ministros angolanos que o praticaram”, revela a autora.

 

De Luanda ao Kuando Kubango

Os dados recolhidos pelas autoras permitem perceber que as províncias que apresentam o maior número de suicídios são Luanda, Huíla e Cuanza Sul. A província do Namibe é a que tem o menor número de casos e não há registo de cometimentos na província do Cuando Cubango.

“Temos muitos casos em Luanda e muitos casos na Huíla. No entanto, eu diria que a taxa será maior na Huíla, já que Luanda é a província mais pequena mas é a que concentra uma maior população. Se compararmos com a Huíla, que é uma província maior mas com uma população muito menor, a percentagem de casos nesta região chega a ser superior. E não é o número que conta, é a percentagem”, afirma a especialista, avançando com uma possível explicação: “No Huambo, de uma forma geral, as pessoas são muito púdicas e conservadoras. O mínimo deslize, o mínimo insulto, assume enormes proporções. Não encaram bem uma situação que os envergonhe.”

 

O perigo do preconceito

Apesar de poder ameaçar qualquer um, o suicídio continua a ser um tema tabu e, “pela natureza do acto, as pessoas preferem ignorá-lo”. Muitas vezes, as famílias nem sequer comunicam que houve um suicídio. Acontece os médicos pedirem ajuda no seio familiar e perceberem que ninguém se tinha apercebido da existência do problema. “Mas todos nós, que lidamos com esta situação e no campo da saúde mental, sabemos que há repercussões, no futuro, para o resto da família. Uma das primeiras perguntas que fazemos sempre aos pacientes são os seus antecedentes familiares e se houve algum suicídio, ou tentativa, na família, mas eles escondem e ignoram esse facto. Ainda há os que conseguem contar as situações, mas são uma minoria”, diz a especialista.

 

Detectar para tratar e prevenir

Na esmagadora maioria das situações a tentativa de suicídio é, na verdade, um pedido de ajuda. Tal como acontece em todo o mundo, “podemos dizer que há uma percentagem mínima de tentativas que culminam em suicídio”, defende Fausta Conceição, alertando para a importância de denunciar estes casos. “Se forem tentativas que cheguem ao nosso conhecimento conseguimos trabalhar esses casos de forma a tentar evitar que se repitam. Nestes casos, defendo que é mandatário o internamento, para podermos prevenir toda e qualquer situação.”

Defendendo que é possível tratar casos de depressão que poderão culminar em suicídio, Fausta Conceição afirma que quem conhecer bem o que é uma depressão, os seus vários tipos e sintomas, pode tratá-la. “Nós estamos aptos a tratar de todo e qualquer transtorno da nossa área.

Só não trata aquele que não conhece a real situação do paciente. Mas é preciso saber distinguir as situações”, diz, referindo ainda que “quem faz o bom médico é o bom paciente” e explicando que, por vezes, é preciso levá-lo a tomar a consciência de que está doente para que “seja mais fácil tratá-lo, porque reconhece que necessita de ajuda e segue a medicação prescrita”.

E foi com o objectivo de ajudar que as quatro autoras se dedicaram à escrita desta obra. Agora, que chegou aos escaparates, Fausta Conceição expressa o seu desejo: “Se conseguirmos, desta forma, evitar um caso de suicídio que seja, já será muito bom, porque só o facto de conseguirmos salvar uma vida é gratificante para o resto da nossa existência.”

 

 

 

 

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Casos “exclusivos” de Angola

 

Fausta Conceição destaca, entre as causas de suicídio, uma situação muito concreta que ocorre na província da Huíla e que é “uma daquelas situações que encontramos quando exploramos as tradições e a cultura de um país com 18 províncias, cada qual com hábitos, costumes e até línguas e dialetos, diferentes. Na Huíla existe um ritual que se chama “coi” e que  acontece quando existe uma traição amorosa levada a cabo pela mulher. O marido, ao aperceber-se que foi traído, reúne as famílias, a sua, a da mulher e a do prevaricador. Depois de uma reunião, a que chamam ‘amigável’, e em que está presente o soba da região, é decidida a multa que o traidor terá de pagar. Por norma, a multa será paga em cabeças de gado. O marido, sabendo que o rival não conseguirá pagar um valor elevado, exige uma multa exorbitante. Tudo isto é determinado, com prazos e regras muito bem estabelecidos. O traidor, sem capacidade para proceder ao pagamento, à medida que vê os dias passarem e percebe que não vai ser capaz de honrar o castigo, opta por suicidar-se. Escolhe este acto para não ficar envergonhado e para não envergonhar o seu povo. É uma questão de honra.”

 

 

 

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Fausta Conceição

Paixão pela psiquiatria

 

Ao conversarmos com Fausta Conceição transparece a paixão com que fala da sua missão como médica psiquiatra. Confessa que escolheu esta especialidade porque “na altura, não tínhamos psiquiatras. Havia o Dr. Rui Pires e a Dra. Natália do Espírito Santo. Quem cuidava dos doentes eram os enfermeiros. Era a especialidade com maior estigma e continua a ser estigmatizada. Não só os doentes o são… a instituição é estigmatizada e o profissional da instituição é estigmatizado”. O seu lado humano, no entanto, terá pesado profundamente nesta escolha. “Os doentes psiquiátricos são muito desprezados e, se não tiverem alguém que lhes dê carinho as coisas não melhoram. Um dos motivos que me leva a gostar da psiquiatria é poder defender os mais fracos. Adoro isto!”

Não baixar os braços

A injustiça a que esta especialidade parece votada leva-a a não baixar os braços na defesa dos seus pacientes: “Ao longo destes anos vimos que todos os hospitais passaram por remodelações e a psiquiatria foi ficando sempre para trás. Outros hospitais têm condições, a psiquiatria não tem. Às vezes, há ‘guerras’ e há quem pense que vou desistir. Não desisto da psiquiatria! Como especialista vou fazer jus àquilo que aprendi, àquilo que estudei. Vou ensinar os outros e continuar a tratar dos meus doentes, que é o que mais adoro”, declara, convicta.

Actualmente, trabalha no Pavilhão Masculino do Hospital Psiquiátrico de Luanda, onde estão internados mais de 150 pacientes. No Pavilhão Feminino, serão cerca de 70, muitas mais do que é habitual, “isto porque este hospital é de tal forma estigmatizado que, se encontrarem alguém na rua que não têm para onde levar, trazem para aqui. Não interessa tentar perceber o que se passa. Encaminham logo o doente para a psiquiatria. O mesmo acontece com doentes de outros hospitais que são transferidos sem razão”, refere a médica, defendendo que é preciso “distinguir e destrinçar situações e não se pode internar sem critério. Temos de observar e medicar os doentes e eles devem voltar para a unidade de saúde de onde vieram. Porque em psiquiatria não devem morrer pacientes. Não podemos permitir que venham aqui “morrer” pessoas”.

Agora que já tem publicado este projecto, revela que não vai parar por aqui. Tem planos de novas aventuras literárias quer em termos colectivos, quer a nível pessoal. “Estou a preparar um livro em que retrato o dia-a-dia da minha psiquiatria, a que irei chamar “Psiquiatriando”. É um retrato do meu quotidiano, do dos doentes… Tenho imensos testemunhos dos meus pacientes, ‘montes’ de papéis, que eles escrevem muito”, adianta, orgulhosa.

 

 

 

 

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Como ajudar?

 

As autoras de O Suicídio em Angola defendem que é importante saber ouvir o suicida e saber os motivos que o levam a querer acabar com a própria vida. Aconselham a quem é confrontado com um potencial suicida a não o criticar nem adoptar uma postura crítica ou moralista. Após ouvi-lo, deverá analisar com ele as dimensões do problema que o aflige e procurar possíveis alternativas.

 

O que fazer

 

  •  Explorar as outras saídas, além do suicídio
  •  Ser afectuoso e dar apoio
  •  Levar a situação a sério e verificar o grau de risco
  •  Perguntar sobre tentativas anteriores
  •  Perguntar sobre o plano de suicídio
  •  Ganhar tempo - fazendo um contrato
  •  Identificar outras formas de dar apoio emocional
  •  Remover os meios pelos quais a pessoa possa matar-se
  •  Tomar atitudes, conseguir ajuda
  •  Se o risco é grande, ficar com a pessoa. Não ignorar a situação

 

O que não fazer

 

  •  Ficar chocado ou envergonhado e em pânico
  •  Tentar livrar-se do problema acionando outro serviço e considerar-se livre de qualquer acção
  •  Dizer que vai ficar tudo bem sem agir para que isso aconteça
  •  Desafiar a pessoa a continuar em frente
  •  Fazer o problema parecer trivial
  •  Dar falsas garantias
  •  Jurar segredo
  •  Deixar a pessoa sozinha.

 

 

 

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Lançamento concorrido

 

As antigas instalações da Divisão de Viação e Trânsito, em Luanda, foram o cenário escolhido para o lançamento de O Suicídio em Angola, uma cerimónia que contou, além da presença das autoras (à excepção de Luisa Assis, ausente por motivos de saúde), com oficiais superiores e subalternos da Polícia Nacional, instituição que colaborou na obra através do levantamento dos dados existentes em território nacional.

A apresentação da obra esteve a cargo de Carlos Pinto de Sousa, bastonário da Ordem dos Médicos, que destacou o seu “interesse público” e importância para “estudantes, profissionais, docentes e investigadores” e que definiu como “atraente e altamente didáctica”.

Rosária Neto, psicóloga clínica e uma das autoras, recordou como surgiu a oportunidade de se envolver neste projecto: “A nossa especialidade diz tudo. Os casos que foram acontecendo na nossa prática médica, não só de suicídios mas também de intenções suicidas, levaram-nos a amadurecer esta ideia. A partir de 2014 decidimos juntar-nos e fazer este lindo produto que, acredito, vai ser muito educativo para as famílias e para a sociedade.” Esta psicóloga clínica afirmou ter realizado este trabalho a pensar no público em geral, já que sente que “a população está muito fragilizada, há muitas doenças psiquiátricas mascaradas e as famílias estão muito desestruturadas. O psiquiatra terá de dar uma ajuda para ajudar a sociedade a ultrapassar este momento”. Referindo os casos com crianças como aqueles que mais a chocam, afirmou que “a carência de afectos leva os jovens para caminhos de auto-destruição”.

Visivelmente orgulhosa pela edição deste trabalho, disse que a maior recompensa foi ter conseguido “dar um contributo ao país” e, uma vez que defende que “a prevenção fica mais barata que a cura”, espera que o livro possa dar origem a programas que visem melhorar o bem-estar psicológico dos angolanos.

Edite Neves, outra das autoras, relembrou que “a ideia foi amadurecendo a pouco e pouco, sempre com o objectivo de ajudar a diminuir os casos de suicídio em Angola”. Na sua prática profissional, a psicóloga clínica já lidou com pacientes com antecedentes familiares de tentativas e suicídios consumados e acredita que, caso essas tivessem tido acesso a uma publicação do género talvez a sua história pudesse ter sido diferente. “As pessoas com intenção suicida dão sinais que, muitas vezes, são ignorados por quem as rodeia. Quem ler esta obra poderá passar a estar mais atento”, desejou.

Confessando “uma enorme felicidade pela publicação do livro”, deixou no ar a intenção de continuar a trabalhar noutros projectos semelhantes e aproveitou para deixar um conselho: “Quero pedir a quem tenha um amigo ou familiar a quem tenha notado mudanças de comportamento, como a busca pelo isolamento, tristeza e choro, que procure ajuda para poder ajudar essa pessoa.”

 

 

 

 

 

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A cada 40 segundos alguém termina com a própria vida.

 Prevenção do suicídio.

Uma luta global

 

Susana Gonçalves

 

Em determinado momento, há quem deixe de encontrar solução para os problemas que o afligem e opte pela morte como resposta à situação que vive. Embora estejam já identificados alguns factores associados ao risco de suicídio, o combate a este fenómeno, que ocorre em todos os pontos do globo, revela-se difícil. Mas são cada vez mais aqueles que se unem para criar estratégias eficientes para a prevenção do suicídio.

 

De acordo com dados recolhidos a nível global pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2012, a cada 40 segundos uma pessoa terá colocado termo à própria vida. Porém, e de acordo com indícios revelados no primeiro relatório da organização sobre suicídio, publicado em 2014, para cada suicídio consumado podem ter existido mais de 20 tentativas, o que implica que, além das 800 mil vítimas, muitos milhões de pessoas são afectadas pelos resultados de tentativas frustradas ou vivem a experiência do luto provocada pela morte de um ente querido.

Em qualquer dicionário será fácil encontrar uma definição de suicídio. A popular Wikipédia, descreve-o como o “acto intencional de matar a si mesmo. A sua causa mais comum é um transtorno mental e/ou psicológico que pode incluir depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, alcoolismo e abuso de drogas. As dificuldades financeiras e/ou emocionais também desempenham um factor significativo.”

Este “acto intencional de matar a si mesmo” verifica-se em todas as idades e em todas as regiões do mundo. Em 2012, terá sido a segunda causa de morte no escalão etário entre os 15-29 anos de idade. Embora, tradicionalmente, as maiores taxas de suicídio se registassem entre os homens de idade avançada, as taxas entre os jovens têm vindo a aumentar e, agora, estes são o grupo de maior risco em um terço dos países, tanto no mundo desenvolvido como no mundo em desenvolvimento.

Apesar de ser considerado um fenómeno global, a verdade, de acordo com o estudo da OMS, é que 75% dos casos de suicídio a nível mundial ocorreram em países de baixo e médio rendimento. Nesse ano de 2012, o suicídio representou 1,4% do total de mortes, tornando-se a 15ª causa de morte.

Numa análise inicial dos resultados obtidos no período entre os anos 2000 e 2012, registou-se, globalmente, uma queda de 9% no número de mortes por suicídio, ao mesmo tempo que a população mundial aumentou. A taxa global de mortalidade por suicídio caiu 21% no mesmo período. No entanto, depois de controlar o envelhecimento da população, observaram-se aumentos em cerca de 50 países, incluindo em alguns países de alto rendimento, onde se registam algumas das taxas mais elevadas.

A preocupação das autoridades em relação a estes resultados, levou a que, por todo o lado, se multiplicassem os estudos sobre intervenções, baseadas em evidências, que podem ser implementadas de forma a prevenir as tentativas e o próprio suicídio.

 

Causas variadas

dificultam combate

O comportamento suicida está associado à impossibilidade do indivíduo para identificar alternativas viáveis para a solução de seus conflitos, optando pela morte como resposta de fuga da situação que o aflige. No entanto, estão identificados alguns factores associados ao risco de suicídio, incluindo a doença mental, a dependência de drogas, bem como factores sócio-económicos. Embora as circunstâncias externas, como um evento traumático, possam desencadear o suicídio, não parecem ser uma causa independente. É mais provável que os suicídios ocorram durante os períodos de crise sócio-económica, crises familiares ou uma crise individual.

O suicídio é, assim, um problema complexo, no qual estão implicados factores psicológicos, sociais, biológicos, culturais e ambientais. Em pontos do globo onde o fenómeno tem vindo a ser alvo de uma maior atenção foram já estabelecidas algumas causas ligadas à opção de pôr termo à vida. Por exemplo, os transtornos mentais, especialmente a depressão e os transtornos por consumo de álcool, são um importante factor de risco de suicídio na Europa e na América do Norte. Já nos países asiáticos, a conduta impulsiva assume especial importância da decisão de pôr cobro à própria vida.

As desordens mentais associadas ao suicídio ocorrem em todas as regiões e culturas do mundo. Destes distúrbios, os mais prevalentes serão a ansiedade e a depressão (que, no pior dos casos, pode levar ao suicídio), que se estima afectarem quase uma em cada 10 pessoas. Além destas causas, existem ainda outros factores de risco, como tentativas anteriores e o acesso fácil a meios de suicídio, como pesticidas ou armas.

 

Metas para 2030

O combate à depressão moderada e severa está incluído no Plano de Acção de Saúde Mental 2013-2020, do plano de Desenvolvimento Sustentável da Nações Unidas até 2030. Até 2020, o objectivo passa por aumentar a cobertura de serviços para pessoas com transtornos mentais graves em 20%. Os Estados membros da OMS comprometeram-se a desenvolver e fornecer serviços de saúde mental abrangentes, através de serviços sociais em ambientes comunitários.

A prevenção do suicídio é outro componente integral do Plano de Acção, com o objectivo de reduzir a taxa de suicídio em 10% até 2020.

No entanto, para que as respostas nacionais sejam eficazes, é necessária uma estratégia multissectorial abrangente de prevenção do suicídio, que deve incluir a identificação precoce e o controlo efectivo de comportamentos suicidas, bem como o acompanhamento e apoio comunitário para aqueles que tentam suicídio, reduzindo o uso nocivo do álcool e restringindo o acesso aos meios mais comuns de suicídio (pesticidas, armas e certos medicamentos). Esta estratégia exige, ainda, que os dados de suicídio-mortalidade e os dados de tentativa de suicídio também façam parte de um sistema de vigilância.

 

Optimismo moderado

No último meio século, apesar do aumento do número de suicídios, ocorreram algumas alterações sociais, sobretudo nos países mais desenvolvidos, que lançam alguma esperança no combate a este flagelo. A descriminalização do suicídio em muitos países tornou possível, àqueles com pensamentos suicidas, pedirem ajuda, quando disponível. As estratégias ou planos de acção nacionais abrangentes, especialmente em países de alto rendimento, e a restrição em alguns países do acesso aos meios de suicídio tradicionais (como pesticidas ou armas), também contribuíram para algumas melhorias. Estão, entretanto, disponíveis novos tratamentos para a depressão, tanto para episódios agudos como para a prevenção de recaídas, com base em medicamentos e intervenções psicológicas que são eficazes e produzem menos efeitos colaterais.

No entanto, as taxas de reconhecimento da depressão permanecem baixas, tanto por aqueles que sofrem do problema, como pelos próprios prestadores de cuidados de saúde. De acordo com pesquisas mundiais de saúde mental, mesmo em nações de rendimento elevado, apenas cerca de metade das pessoas com depressão recebe qualquer tratamento, sendo que cerca de 40% recebem tratamento considerado minimamente adequado. Nos países de baixo rendimento a cobertura é muito menor. Na Nigéria, por exemplo, apenas um quinto daqueles que sofrem um episódio depressivo recebe qualquer tratamento e apenas um em cada 50 recebe um tratamento minimamente adequado.

 

O tabu persiste

O estigma que envolve a depressão e o suicídio, que impede a busca de ajuda e prestação de serviços, é exacerbado para os grupos de marginalizados e discriminados. Além disso, muitas unidades de saúde em todo o mundo não têm capacidade para fornecer tratamento básico para a depressão, uma vez que os seus profissionais não estão treinados em questões de saúde mental e os medicamentos não estão disponíveis.

A nível mundial, a prevenção do suicídio é uma necessidade que não tem sido abordada de forma adequada, basicamente, devido à falta de sensibilização sobre a importância deste problema e do tabu que rodeia e que impede que se combata de forma segura. De facto, são muito poucos os países que incluem a prevenção do suicídio entre as suas prioridades.

É esse mesmo estigma que impede a maioria dos países colectarem correctamente dados relativos ao fenómeno. Dos 194 países da OMS, apenas 60 mantêm informações sobre o assunto.

A fiabilidade dos sistemas de certificação e notificação dos suicídios requere melhorias significativas. O registo completo de mortes por suicídio nos sistemas de registo de mortes implica uma boa ligação entre os sistemas hospitalares e policiais, mas pode ser seriamente comprometido por estigmas, considerações sociais e legais e atrasos na determinação da causa da morte. Menos de metade dos membros da OMS têm sistemas de registo de óbitos que apontam as causas de morte. Em particular, muito poucos países de baixo rendimento têm estes sistemas em funcionamento.

Embora se saiba que a depressão é uma causa prevalente, os dados disponíveis não são adequados para fornecer estimativas fiáveis das tendências globais e regionais. Os sistemas nacionais de informação sobre saúde não recolhem rotineiramente dados sobre um conjunto básico de indicadores de saúde mental em mais de dois terços dos países e não conseguem fornecer informações fiáveis sobre a extensão da cobertura dos serviços, mesmo para os transtornos mentais graves.

Assim, a prevenção do suicídio requer a intervenção de sectores diferentes da saúde e exige um enfoque inovador, integral e multi-sectorial, com a participação tanto do sector da saúde como de outros sectores, como por exemplo a educação, o mundo laboral, a polícia, a justiça, a religião, o direito, a política e os meios de comunicação social.

 

 

 

 

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Periodontite: uma das causas de perda de dentes

 

Celso Serra

serra.celso@gmail.com

 

Estima-se que 80% da população adulta, potencialmente, sofra de doença periodontal. A doença periodontal – enquanto patologia que afecta os tecidos de suporte dentário – é, por vezes, negligenciada pela ausência de informação sobre os sinais e sintomas que a acompanham. Sendo nas suas formas menos graves facilmente tratada, quando em estados avançados pode levar à perda de dentes. Sinais como: alteração de cor e forma da gengiva, hemorragia espontânea ou ao escovar os dentes, mobilidade dos dentes, alguma supuração, são, entre outros, alertas de que podemos estar em presença de uma periodontite uma das causas de perda de dentes em adultos. A periodontite tem como particularidade a perda de osso de suporte dos dentes. Para que tal aconteça concorrem vários factores destacando-se uma deficiente higiene oral, ser fumador, doenças tais como a diabetes, stress, alterações hormonais, entre outras. Sendo uma patologia caracterizada pela reabsorção óssea, perda óssea, só com exames radiológicos se consegue um diagnóstico correcto.

 

Deficiente higiene oral

Associada, maioritariamente, à deficiente higiene oral, a periodontite resulta da acumulação de biofilme que após algum tempo pode dar origem ao chamado tártaro, placa bacteriana mineralizada, que se situa junto aos dentes supra e subgengivalmente. Este tártaro acaba por fixar, junto dos tecidos gengivais, bactérias e os produtos tóxicos resultantes do seu metabolismo. Desta interacção desenvolve-se uma inflamação que não sendo parada a tempo pode levar a consequências graves. Se nem todas as gengivites evoluem para periodontite, muitas são as que por falta de tratamento acabam por evoluir nesse sentido. Assim, ao primeiro sinal de inflamação da gengiva devemos actuar no sentido de evitar que haja uma progressão da doença. A existência de hemorragia, sangue aquando da escovagem é um sinal que deve ser tido em conta. A gengiva saudável não regista hemorragia ao ser tocada numa escovagem correcta.

 

Tratamento

O tratamento da periodontite, uma vez diagnosticada, passa por eliminar os factores que estão na origem da mesma e manutenção no sentido de evitar a evolução da doença. A remoção do biofilme/tártaro, o controlo adequado da formação do biofilme (escovagem, fio, escovilhão, etc), o recurso a dentífricos e elixires específicos são, numa primeira fase da doença, as medidas constantes do plano de tratamento. Se a fase de diagnóstico e execução do plano de tratamentos são importantes, a fase de avaliação do plano de tratamento e a manutenção sugerida são decisivas. Assim, o paciente deve seguir escrupulosamente as orientações recebidas pois, dado o carácter de irreversibiliadade da periodontite, a manutenção diária da saúde oral dentro de parametros controlados é a chave para o sucesso do tratamento. Em casos que o tratamento não cirúrgico se revela insuficiente a cirurgia poderá ser necessária embora a opção actual seja mais no sentido de a evitar.

 

Chave do controlo

Resumindo, um bom diagnóstico, apoiado em exames auxiliares de diagnóstico, um plano de tratamento adequado às necessiades da situação e a colaboração diária do paciente são a chave para o controlo de uma patologia que vai afectando, silenciosamente, um grande número da população e consequentemente a conduzir à perda de dentes.

 

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